Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



GUERRA PERDIDA

Quinta-feira, 19.07.07

 

The Wasted War (Artwork by Coral Hull, 1989)

 

 

  

Quando o espírito se cansar de tanto labutar

Junto o corpo num pequeno avental

E lá no fundo

Uma rosa espetada

Por cima do portal

Um campo de cruzes

Uma rosa no avental

O espírito com o corpo

Eles juntos cansados de labutar

Enterrados com a rosa num pequeno portal

Um campo de rosas com espíritos e corpos a dançar

 

Duas figuras teimam em querer sair

Descolam do plano

Tornam-se vísiveis

Dançam no campo de rosas

Junto do portal

Deslizam lentamente

Duas crianças de mãos dadas

Correm…

Correm nos campos de rosas com corpos a sangrar

Zunidos de flores que choram

Com ruídos de bandas a estoirar

Os corpos deixam de sangrar

Param para escutar

As flores sangram

As rosas continuam a dançar

Música de dança com armas a tocar

Som uniforme

Desgastado

Arrepiado

Para ouvidos sensíveis

De crianças que sangram

Ao ouvir as flores a cantar

Os corpos a chorar e as

Rosas que maravilhadas tudo escutam sem reparar

 

Um estrondo enorme

Uma decisão fatal

Um corpo que finalmente morre

Uma bomba, uma rosa

Crianças que choram

Cantam ao som estrondoso

De uma bomba nuclear

Fulminante

Lindo

Eclipse total

As crianças maravilhadas

Os corpos mortos, feridos

Flamejados, ensanguentados

Uma guerra no campo

No campo das rosas que dançam

Ao som bonito do ribombar

Dos canhões

Dos ventos polares

Das gaivotas pelos ares

Dos navios sem rumo

Das crianças sem pai

E afinal acabou-se o musical

 

A chuva caiu

As rosas despediram-se do campo

Das crianças

Fecharam as portas do portal

E um a um em fila indiana

Dirigiram-se para a campa

Dos campos das rosas

Que num dia bonito

Dançaram ao som fatal

Das bombas a estoirar

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 16:28

OLHAR

Terça-feira, 17.07.07

 

 

 

Quando te conheci apresentavas-te

Calmo, sereno, talvez inibido

O teu olhar longuínquo, sem ponto fixo

Curiosamente alertou-me, e então senti-me

envolvida por esse olhar que não me olhava

Procurei-o incessantemente, dia após dia

mês após mês, e cada vez mais se parecia

Com um olhar que desconhecia

Procurei-o infatigavelmente

Segui teimosamente o rasto do teu olhar

Por fim encontrei-o

Era triste e só esse teu olhar

Procuravas-te...

Encontrei-o num desses raros momentos

Em que desvias-te o olhar para parar

Choraste de encontro ao meu olhar

E contigo chorei por te ver chorar

Foram momentos fecundos

Em que gotas d'água germinaram

Fecundaram

Fundiram-se num pequeno mar...

Quantas lágrimas mais iremos chorar?....

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 10:18

JÚLIO DINIS

Segunda-feira, 16.07.07

 

 

  

 

 

 

Júlio Dinis, pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871), nasceu no Porto e foi entre esta cidade, Ovar e o Douro que passou grande parte da sua vida. Tirou o curso de medicina na Escola Médica do Porto, aliando a profissão de médico à de escritor. Os seus primeiros textos foram publicados em A Grinalda e em O Jornal do Comércio. De uma família de tuberculosos (a mãe e os irmãos morreram com essa doença), Júlio Dinis contrai também a doença e parte numa cura para a Madeira, cura esta que de pouco lhe valeu, falecendo ainda muito novo. Obras: As Pupilas do Senhor Reitor (1867), Uma Família Inglesa (1868), Serões da Província (1870), Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), Poesias (1873) e Teatro Inédito (3 volumes – 1946-1947).

 

 

 

 

 

Capa

 

 

 

 

"Defronte do campo, donde, com as melhores intenções deste mundo, o reitor estava espionando, e separado apenas dele pela estreita e úmida rua, de que já falamos, estendia-se um trato de terreno inculto, muito coberto de tojo e de giestas, e dessa espontânea vegetação alpestre, que, no nosso clima, enflora ainda mais os montes mais áridos e bravios.

Dispersas por toda a extensão deste pasto, erravam as ovelhas e cabras de um numeroso rebanho, de que eram os únicos guardadores, um enorme e respeitável cão pastor e uma rapariguita de, quando muito, doze anos de idade.

Até aqui nada de notável para o reverendo pároco.

Mas o que o maravilhou foi o grupo que formavam, naquele momento, a pequena zagala, o cão e o nosso conhecido Daniel, por via de quem o bom do padre empreendera tão trabalhosa excursão.

A pequena sentada junto de uma pedra informe e musgosa, folheava com atenção um livro, dirigindo, de tempos em tempos, meios sorrisos para Daniel, que, deitado aos pés dela, de bruços, com os cotovelos fincados no chão e o queixo pousado nas mãos, parecia, ao contemplar embevecido os olhos da engraçada criança, estar divisando neles todos os dotes mencionados na canção da Morena, que lhe ouvimos cantar.

Jaziam ao lado dos dois uma roca espiada e os livros de Daniel.

Completava o grupo o cão, enroscado junto do pequeno estudante com desassombrada familiaridade, e denunciando assim que o conhecimento entre eles, e por conseguinte de Daniel com a pastora, não era já de recente data.

Este grupo, apesar de toda a sua beleza artística, realçada pelas meias tintas do crepúsculo e por o fundo alaranjado do céu, sobre que se desenhavam os rendados das árvores ao longe, não agradou de maneira nenhuma ao reitor, que, com um franzir de sobrolho, mostrou claramente a contrariedade que ele lhe fazia experimentar.

Esteve para surgir entre o centeio e mostrar-se aos enlevados personagens deste idílio infantil, severo e terrível, como o velho vulto do gigante Adamastor, nas estâncias do grande épico."

 

Excerto do capítulo IV  do livro "As Pupilas do Senhor Reitor"

 

 

 

 A Ilustração - As Pupilas do Senhor Reitor
Alfredo Roque Gameiro

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 13:03

What a Wonderful World - Louis Amstrong

Sexta-feira, 13.07.07

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 15:51

AMARRAS

Quinta-feira, 12.07.07

 

Gostava de poder libertar as amarras que sufocam 

os meus pensamentos,

as minhas opções,

as minhas atitudes

O que penso não proclamo

com receio de me julgarem... ingénua

opto sempre a pensar nos outros e pouco em mim

as atitudes são severamente pensadas

para não serem crucificadas

Assim é como se vivessem

em mim várias pessoas

Assim é como se no meu palco

representassem vários actores

No entanto, consigo coordenar

quase todos os momentos e

se num sou a mãe carinhosa

no outro a dona de casa empenhada

a anfitriã descontraída

a esposa esforçada

onde fico "eu"

ou o pouco que resta de mim

aquela cujos pensamentos não divulga

as opções não concretiza

e as atitudes afoga...

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 22:23

XADREZ

Terça-feira, 10.07.07

 

 

 

 

Quando olho esse teu olhar

Por arte ou por instinto descubro

Que a minha felicidade já pequena

Apaga-se

Esvai-se

Foge-me por entre esse teu olhar

Perdido

Já não tento confrontá-lo

Não há luta possível que o possa derrotar

Alio-me  a esse olhar

Perco-me dentro dele

Sinto-me  desfalecer

Sinto que ao aderir

Deponho armas imaginárias

Sobre um solo inexistente

Perco uma batalha que

Só existe na minha mente

Um desafio num tabuleiro de xadrez

No qual mudei uma pedra

O rei talvez

Pergunto-me saberás tu jogar xadrez?

Desloquei uma pedra

Ainda aguardo a tua vez

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 10:29

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Segunda-feira, 09.07.07

 

Alguns livros para a infância de Sophia de Mello Breyner Andresen que nos ficam na memória...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 14:25

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Segunda-feira, 09.07.07

Sophia de Mello Breyner Andresen é, sem sombra de dúvida, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos – um nome que se transformou, em sinónimo de Poesia e de musa da própria poesia. 

Sophia nasceu no Porto, em 1919, no seio de uma família aristocrática. A sua infância e adolescência decorrem entre o Porto e Lisboa, onde cursou Filologia Clássica. 

Após o casamento com o advogado e jornalista Francisco Sousa Tavares, fixa-se em Lisboa, passando a dividir a sua actividade entre a poesia e a actividade cívica, tendo sido notória activista contra o regime de Salazar. A sua poesia ergue-se como a voz da liberdade, especialmente em "O Livro Sexto".

Foi sócia fundadora da "Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos"e a sua intervenção cívica foi uma constante, mesmo após a Revolução de Abril de 1974, tendo sido Deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista. 

Profundamente mediterrânica na sua tonalidade, a linguagem poética de Sophia de Mello Breyner denota, para além da sólida cultura clássica da autora e da sua paixão pela cultura grega, a pureza e a transparência da palavra na sua relação da linguagem com as coisas, a luminosidade de um mundo onde intelecto e ritmo se harmonizam na forma melódica, perfeita, do poema. 

Luz, verticalidade e magia estão, aliás, sempre presentes na obra de Sophia, quer na obra poética, quer na importante obra para crianças que, inicialmente destinada aos seus cinco filhos, rapidamente se transformou em clássico da literatura infantil em Portugal, marcando sucessivas gerações de jovens leitores com títulos como "O Rapaz de Bronze", "A Fada Oriana" ou "A Menina do Mar". 

Sophia é ainda tradutora para português de obras de Claudel, Dante, Shakespeare e Eurípedes, tendo sido condecorada pelo governo italiano pela sua tradução de "O Purgatório".

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 13:49

OTIS READING

Sexta-feira, 06.07.07

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 10:02

SEM PALAVRAS

Sexta-feira, 06.07.07

 

 

Eram dois seres que estranhamente reconhecia

Caminhavam lentamente em busca de algo

Entre eles existia um sentimento desconhecido

Sem nome, sem palavras

Comunicavam com o corpo

Como se os movimentos corporais

Fossem a única linguagem possível

Quando se olhavam

Uma corrente de amor

Era tão nitídamente visível

Que se materializava

Em pedaços de ternura e carinho

Até que um dia

O corpo de um deixou de falar

Movimentava-se vagarosamente

Como se cada movimento representasse

Uma estranha dor...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por teresworld às 09:52






mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Julho 2007

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031