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NUM MUNDO

Quarta-feira, 29.08.07

 

 

  

 

 

pease3

 

 

 

Como se vivesse-mos juntos

mas em mundos diferentes

como se eu num mundo físico, visível

e tu num mundo paralelamente não visível

num mundo não físico

desprendeste-te do corpo que carregavas

mas a alma,

o espírito

o teu sentir

o teu saber

o teu sonhar

permanece em mim

tão intensamente

que por vezes é quase possível sentir-te fisicamente

naquele beijo repenicado

na face das tuas minhas crianças

num abraço apertado

carregado de ternura

que um ser pode transmitir a outro ser

a distância física que existe entre nós

que se reflecte nesta interminável ausência

não nos separa...

o amor que sinto por ti

continua vivo, teimosamente vivo

como se nenhuma ausência possível o destruísse

e a distância

e a ausência

é a tua presença

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publicado por teresworld às 17:44

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Sábado, 25.08.07

 

 

Aracataca, 1928

 

Escritor colombiano. Jornalista na sua juventude, vive durante vários anos em França, México e Espanha. Em Itália estuda cinematografia. García Márquez é um romancista universalmente reconhecido, recebendo em 1982 o Prémio Nobel da Literatura. Inicia a sua carreira literária com a publicação de diversos contos, como,  por exemplo, A Trovoada (1955) e Ninguém Escreve ao Coronel (1962). Nestas obras está já presente o mundo mítico e fantástico que retracta magistralmente na sua obra-prima, Cem Anos de Solidão (1967).    

O autor, situando-se no ambiente mágico de Macondo, em Cem Anos de Solidão eleva a realidade a uma categoria onírica,  nela sintetizando os mais diversos elementos: a história, a natureza, os problemas sociais e políticos, a vida quotidiana, a morte, o amor, as forças sobrenaturais, o humor, o lirismo... Da sua fusão surge um deslumbrante romance, exemplo único daquilo que a partir de então passa a ser designado por «realismo fantástico».    

 

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publicado por teresworld às 19:35

TABACARIA

Quarta-feira, 15.08.07

 

    

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

 

Poesia de Álvaro de Campos

Álvaro de Campos, um dos hererónimos de Fernando Pessoa.

"A poesia de Pessoa é a interminavel edificação de uma Pátria-Nau de Linguagem que realize as  virtualidades de uma personaidade que é vários nomes no nome-viagem chamado Fernando Pessoa. "Para que é preciso um nome?", repete insistentemente a sua poesia. Nós somos linguagem, somos "daquilo de que os sonhos são feitos".

In Fernando Pessoa - Poemas Escolhidos (Selecção e apresentação de Jorge Fazenda Lourenço) - Editora Ulisseia, 1985


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publicado por teresworld às 22:18

ESPELHO

Terça-feira, 14.08.07

 

 

 

 

Por vezes paro no tempo e desloco-me no espaço
Recuo na idade e sinto-me novamente adolescente
Não sei…sinto-me reviver momentos loucos
Revejo-me como se me mirasse ao espelho e
Salto dentro
Por instantes já não me observo
mas sim vivo intensamente
Como se o momento fosse o presente
Sinto a pele quente daquele sol resplandecente
Sinto a vontade de mergulhar nas
águas sujas de um rio que conheço perfeitamente
Esqueço que não sei nadar
Os odores penetram as minhas narinas
E ao longe o eco das gaivotas
confunde-se com os pregões das peixeiras
Ainda sinto no ar
o cheiro do peixe
Saudades…
Detesto o cheiro de peixe
Mas sinto saudade
Depois daqueles momentos loucamente vividos
Tenho gravado na minha máquina fotográfica
Que é como quem diz na minha mente
Esta imagem pictórica
Mistura de odores, cores, sons
Custa-me falar sobre os personagens
Que integram completamente esta paisagem
este retrato
Como qualquer filme
faltam os actores
Lembrar…
 já faz muito tempo
Muito mesmo que não o faço
Mas de repente
recuo quase metade da minha vida
Para lembrar
Não quero ser infiel
Quero apenas lembrar
O meu coração após tanto tempo sobressalta
Arfa, pulsa
Só de lembrar
São mil imagens por segundo
São momentos guardados
Não esquecidos
que revivem como por mera magia
Após tanto tempo gostava de falar
de descobrir, de partilhar
E sobretudo de saber como tudo isto
Poderia acontecer
Queria descobrir o que sentir
Qual seria a minha reacção
Se iria ser banal
Se simplesmente
observaríamos as nossas transformações
E que pensamentos percorriam as nossas mentes
E sentir, e sentir que o teu sentir
É igual ao meu…
 

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publicado por teresworld às 01:00

FERNANDO PESSOA

Sexta-feira, 10.08.07

 

I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

III

A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro...
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Queóps, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Queóps em ouro velho e Mim!...

IV

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...

De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje..

VI

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela 
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, 
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
 

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publicado por teresworld às 12:30

PERDIDA NO TEMPO

Terça-feira, 07.08.07

 

 

 

 

 

 

Castle of Illusion Poster by Irvine Peacock

 

 

Fechada em mim
Vive uma jovem princesa
Que perdida no tempo
Vive o tempo perdido
Num castelo edificado
Com risos maléficos
E lanças mortais
Dispara palavras
Em torno do silêncio

 

 

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publicado por teresworld às 18:23

BOB MARLEY

Sexta-feira, 03.08.07

Esta musica evoca-me as minhas férias em tempos idos, sempre que saímos eufóricos, rumo a oito dias de loucura, com muita musica á mistura....

 

 

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publicado por teresworld às 16:27

CAPITÃES DA AREIA

Quarta-feira, 01.08.07

 

 

 

 

 

"Contam no cais da Bahia que quando morre um homem valente vira estrela no céu. Assim foi com Zumbi, com Lucas da Feira, com Besouro, todos os negros valentes.Mas nunca se viu um caso de uma mulher, por mais valente que fosse, virar estrela depois de morta.

Algumas, como Rosa Palmeirão, como Maria Cabaçu, viraram santas nos candomblés de caboclo. Nunca nenhuma virou estrela.

 Pedro Bala se joga nágua. Não pode ficar no trapiche, entre os soluços e as lamentações. Quer acompanhar Dora, quer ir com ela, se reunir a ela nas Terras do Sem Fim de Yemanjá. Nada para diante sempre. Segue a rota do saveiro do Querido-de-Deus. Nada, nada sempre. Vê Dora em sua frente, Dora, sua esposa, os braços estendidos para ele. Nada até já não ter forças. Bóia então, os olhos voltados para as estrelas e a grande lua amarela do céu. Que importa morrer quando se vai em busca da amada, quando o amor nos espera?

Que importa tampouco que os astrônomos afirmem que foi um cometa que passou sobre a Bahia naquela noite? O que Pedro Bala viu foi Dora feita estrela, indo para o céu. Fora mais valente que todas mulheres, mais valente que Rosa Palmeirão, que Maria Cabaçu. Tão valente que antes de morrer, mesmo sendo uma menina, se dera ao seu amor. Por isso virou uma estrela no céu. Uma estrela de longa cabeleira loira, uma estrela como nunca tivera nenhuma na noite de paz da Bahia.

A felicidade ilumina o rosto de Pedro Bala. Para ele veio também a paz da noite. Porque agora sabe que ela brilhará para ele entre mil estrelas no céu sem igual da cidade negra.

O saveiro do Querido-de-Deus o recolhe."

Excerto do livro "Capitães da Areia" de Jorge Amado.

Li este livro muito novinha...Ficou na minha memória o sabor das lágrimas que não consegui conter... em pequenos trechos como este aqui editado.

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publicado por teresworld às 16:46





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